Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

A boneca de maçapão

Um excerto de uma das histórias do Assassino do Amor quando este já vai atingir os mil anos de idade...

980 depois de Cristo 

- Que linda boneca de maçapão… - Exclamou a jovem rapariga de origens estrangeiras, enquanto olhava fascinada para a montra do pasteleiro. 

O homem com uma longa túnica de couro para o proteger do calor esboçou um sorriso amargo.

- É inspirada na minha musa…A mulher que destruiu o meu coração! – Murmurou o homem numa voz sinistra, arrepiante e metálica, com um sotaque tipicamente do norte, que arranhava as orelhas com um sentimento desagradável.

- Credo! – A mulher suspirou um pouco espantada, enquanto ajeitava a túnica azul de turquesa, com um perfume doce, mas subtil a pairar em volta da figura graciosa. – Se a odeia assim tanto porque é que fez uma boneca de maçapão em honra dela?

Dois olhos penetrantes cor de jade brilhavam, polidos e incrustados naquela estátua gelada de anjo caído.

- Talvez porque mesmo que ela tenha sido uma das razões da minha ruína, não posso deixar de esquecer que ela era uma verdadeira beldade!

Desde que entrara naquela loja que a jovem filha do Encantador de Montanhas ficara sumamente impressionada com aquele homem alto, de trinta e tal anos, com um pequeno sorriso nos lábios efeminados. O mais impressionante é que não bastava pouco para que aquelas mãos magras, finas como patas nuas de uma aranha, lhe tocassem ao de leve.

Porém, a pequena, com o rosto mediterrânico oculto debaixo do véu de seda, estava encantada com o realismo com que a boneca de longos cabelos da cor do morango tinha sido desenhada, com aqueles dois olhos tão brilhantes como avelãs a resplandecerem, e um corpo elegante de cobertura de chocolate de leite macio e cremoso. As faces estavam polvilhadas com uma pequena dose de canela, com lábios pintados com uma pequena calda de framboesa, com um narizinho e umas sobrancelhas de chocolate preto quente bem esculpidas.

Só o cheiro intenso a canela e a baunilha era suficiente para que ela ficasse com a boca seca e molhada ao mesmo tempo.

A jovem filha do Encantador de Montanhas estava completamente fascinada com a beleza da boneca da Princesa Eris.

- Parece tão real! Como é que um homem que tem tanto ódio no coração pode ter feito uma coisa tão preciosa? – Indagou a jovem, enquanto inalava um pouco embaraçada o perfume a chocolate suave e apetitoso vindo da boneca, com ambas as bochechas coradas.

- Se quiser, pode levá-la, Sra. Freguesa…

De repente, a respeitável Filha do Encantador de Montanhas arqueou as sobrancelhas, ao erguer os olhos castanhos em direcção ao confeiteiro. Abanou receosamente a cabeça, ao reparar o quão cremoso e carinhoso era aquele sorriso, tão suave, e no entanto tão quente quanto um copo de saquê.

- Eu…Eu n-n-não posso! – Respondeu ela, com um ar de quem pedia desculpas. – O que é que o meu pai e a minha mãe diriam se eu lhes dissesse que gastei todo o dinheiro para as compras numa coisa tão frívola como um doce?

Antes que ela recuasse para sair da loja, o homem fez uma vénia formal e pegou com o maior dos cuidados na boneca. 

- Por favor, é por conta da casa. Afinal de contas, creio que essa boneca só me traz más-recordações.

A rapariga não fazia a mínima ideia quem era o homem, nem em quem tinha sido inspirada a boneca. No entanto, algo incitava-a a levar aquele objecto tão precioso e tão ricamente ornamentado ao mesmo tempo. O próprio pasteleiro (que era ao mesmo tempo confeiteiro) tinha um rosto que se assemelhava a leite-creme…!

Quando chegou ao quarto, a jovem pousou a boneca perto da cama, para que a pudesse ver todos os dias. A verdade é que esta era tão bonita que a jovem Izdihar não conseguia comê-la.  Porém, quando suou a uma da manhã, ela devorou-a de uma só dentada.

Na manhã seguinte, ela viu-se presa numa enorme cama, com fitas de couro cor de chocolate a paralisarem-lhe os braços. A cama de mogno escuro por si só tinha um cobertor quente de pele da cor do sangue. As janelas estavam cobertas por cortinas cor de esmeralda escura, polida e perfumada com uma fragrância intensa e picante de homem. As paredes, frias e cinzentas, estavam decoradas com figuras terríficas de demónios dourados. Uma pequena túnica da cor da flor de pêssego, suave tal como algodão-doce cobria o peito avantajado da jovem de dezoito anos.  

«Como é que eu vim parar aqui…?» Perguntou Izdihar para si própria, assustada. Não se lembrava de nada, a não ser de depois de ter comido a estatueta de cair num sono profundo…Porque teria comido aquela boneca?

Um vento gelado percorreu-lhe a espinha! O ranger das portas cor de cal sibilou nas orelhas dela, à medida que a terceira filha do Encantador das Montanhas tremia com o suor quente a escorrer pelas têmporas delicadas.

Um sorriso carnívoro e afiado brilhou na penumbra da alva.

- Izdihar… - Uma voz familiar e aguda ecoou nas orelhas dela, enquanto a silhueta alta de um homem com longos cabelos cor do sangue se afigurava nas sombras das paredes iluminadas por um candeeiro de papel ténue de canela.

- Eu-eu lembro-me de vós…Sois o pasteleiro que me vendeu aquela boneca de maçapão! – Exclamou a rapariga num gemido, indignada pelo homem a ter enganado.

O Assassino do Amor soltou uma risada trocista ao aproximar-se da jovem rapariga, as botas de couro a ressoarem no chão de madeira.

- És mais esperta do que eu pensava, minha querida. – O tom de voz falsete era obviamente irónico, enquanto ele encostava-se na cama, muito satisfeito por ter finalmente aquilo que queria.

Sábado, 14 de Abril de 2012

Minha querida Narciso Negro...

Quando o Inverno se aproximou,
Deixaste um pequeno pássaro a morrer,
Será que não percebeste que o verbo "ter",
É uma prova evidente que a túnica,
De sangue se sujou!


Se te tocar com os meus lábios de pecador,
Sentirás todo o meu ódio que o meu coração,
Tem guardado para o mundo,
Mas, por favor, não largues a minha mão,
Senão nunca mais desaparecerá a minha dor!


Fica atenta, querida e sombria Narciso,
Pois quando o meu carro passar,
Para aonde quer que vás, sentirás o medo,
Sentirás que recuperaste aquele maravilhoso siso,
Sentirás a memória dos tempos antigos voltar!

Isto foi tudo o que o assassino deixou: uma carta com uma mensagem escrita nos lindos caracteres do dialecto do Norte da Bellanária. Ao acordarem para verem o que tinha acontecido, o Tenente Irmãozinho e o Capitão Jaguar Sangrento apressaram-se para verem o que se tinha passado no palácio da Avenida Schesrfhafranneega na Cidade dos Deuses. A Avenida não fazia parte do districto sagrado de Suryadevnahutbal. Um bruxo poderia muito bem entrar na residência de Sua Divina Majestade, a Mãe da Bellanária, a Imperatriz Melnjar IV sem que os guardas oferecessem muita resistência.

E o que eles viram foi ainda pior do que imaginaram: a Imperatriz Karolina Stephanie Di Neptunus deitada na sua cama de cetim branco, nua e ensopada no próprio sangue com pequenas tiras de cetim negras a amarrá-la à cama. Estava pálida, os seios tinham-lhe sido arrancados com corte de adaga profundos, o olhar de safira petrificado de medo, a boca estava aberta numa expressão que se podia dizer que ela tinha gritado por socorro, mas ninguém tinha vindo em seu auxílio. Tudo isto demonstrava não só uma inegável tendência perversa do assassino para jogos de Sadismo e Masoquismo, mas também uma referência à tendência artística Bellante do Novae Ero Art, com pequenos espinhos de plantas a segurar a cabeça pelo pescoço. Havia uma estaca nas partes femininas de Sua Majestade, uma ferida profunda de uma espada numa veia do pescoço onde não se podia morrer rapidamente, e marcas de dentes afiados de demónio na zona intermédia entre o pescoço e os seios agora ausentes da mulher.

- Credo, por todos os Deuses! Quem é que poderia ter feito uma coisa destas à minha mãe?! - As lágrimas caiam dos olhos da pobre Princesa Swerdinada ao procurar refúgio nos braços do Capitão Thomas Migntetiyte, pois era esse o nome do membro da Guarda Imperial.

- Não se preocupe, Princesa. Quem quer que tenha sido o depravado que fez uma coisa tão horrível à Imperatriz, não é um vampiro. Os vampiros só se alimentam de sangue de humanos mortos. - Thomas Migntetityte assegurou no seu sotaque de leste Europeu.

- Claro que não foi um vampiro! - Comentou o Tenente Irmãozinho ao acender friamente um cigarro. - Isto é obra de um bruxo...um bruxo demoníaco!

Com o cigarro aceso ele apontou para o chão de mármore: tinha escrito com o próprio sangue da Imperatriz um carácter muito particular, a primeira pincelada desenhava uma perna encurvada, duas flechas juntas, e uma espiral na flecha superior. A quarta pincelada era um losango, com uma Lua a contornar em quarto-crescente o losango como última pincelada.

- Este é o primeiro carácter da assinatura do Assassino do Amor. Nenhum outro demónio, cyborg ou feiticeiro seria assim tão tolo para assinar um crime destes com este carácter...a não ser que seja um daqueles fanáticos que acreditam na profecia de que um dia o Mestre Rwebertan Samiel Di Euncätzio voltará. - Irmãozinho sugeriu com um ar pensativo ao inalar um pouco do seu cigarro.

A Princesa Swerdinada tremeu.

- Não se está a referir àqueles selvagens da Irmandade do Tigre Azul, pois não?! - Ela gemeu, com um calafrio nas costas. - Não diga isso nem a brincar, Tenente!

Ao soprar mais uma nuvem de fumo cinzenta, o Kulmabgigi respondeu, com uma mão nos bolsos:

- Foi só uma suposição Princesa...De qualquer maneira, o sacana pode muito bem parecer-se com um homem completamente normal.

Entretanto, Isaías continuava escondido no armário, a tremer que nem varas verdes. De um momento para o outro, saiu do seu esconderijo, encharcado em suor. Tinha estado paralisado de medo como nunca estivera! Dorido tanto nas costas humanas como nas patas de cavalo, ele ajoelhou-se apressadamente diante da Princesa. Pousou as mãos aparentemente humanas nas da Princesa, embora ela não o conseguisse ver, podia senti-lo.

- Quem era o homem que te fez ficar assim? Quem é que matou a minha mãe? - Perguntou Swerdinada, preocupada, ao sentir o medo que transpirava dos poros daquelas mãos do jovem de dezasseis anos.

Depois de tomarem notas de tudo o que o jovem centauro dizia, o Princípe Migntetiyte e do Tenente Irmãozinho repararam que a Princesa Swerdinada ficara tão chocada que quase desmaiava. Senão fosse o facto que o tenente estava por perto, ela teria ficado inconsciente.

- Ele tocou mesmo na minha mãe, não tocou?! - Soluçou a pobre princesa, amparada pelos braços do tenente.

O cigarro ainda estava naqueles lábios secos e trigueiros do oficial subalterno e aquele fumo...Fazia-lhe lembrar um pesadelo que tivera há anos atrás. Ou talvez fosse num sonho que ela tivesse inalado aquele cheiro desagradável e forte a enroscar-se à volta do pescoço dela...Estava a comer umas gomas coloridas em formas de lindas creaturas Chinesas, embrulhadas em pétalas de flores. As nuvens de fumo saíam de uma boquilha de prata resplandecente, enquanto alguém olhava para ela com um pequeno sorriso. No sonho, era uma criança de oito anos, e estava num enorme sofá. Aquele sonho tinha sido agradável e arrepiante ao mesmo tempo. Talvez fosse por causa disso que gostasse tanto dos feiticeiros e dos Cy-bata, embora não podesse ver muito bem estes útlimos.




Comovido com a doçura e inocência da Princesa, o Princípe Migntetiyte, Capitão da Companhia dos Jaguares do Leste da Guarda Imperial da Resistência, corou, com um pouco de inveja do Tenente.


- Princesa... - Murmurou o Princípe de trinta e dois anos.

Porém, o Tenente foi muito cortês ao pousá-la na cama. Quando fumava, ele parecia que se tornava mais velho e sério aos olhos da Princesa. Porém o Tenente não se achava particularmente atraente. Apesar do seu aspecto andrajoso e o seu ar um pouco rude, os seus olhos cor de âmbar reflectiam uma alma honesta. Ele era o que se podia chamar de um diamante em bruto.
Com o longo e grande nariz partido tipicamente de feiticeiro, qualquer um poderia pensar que ele um homem muito duro de roer! Como tinha um horror a usar o uniforme, ele parecia-se com tudo menos com um oficial do Exército Imperial da Bellanária. Porém andava sempre com a barba feita.

- Não se preocupe, Princesa. Nós vamos apanhar esse lunático!

A Princesa , um pouco mais calma, observou o pergaminho um pouco molhado com o sangue da própria mãe. Com as mãos, ela tacteou a tinta cor das flores violetas, que brilhava como se fosse do mesmo material das estrelas.

- Consegue traduzir este poema Chinês, Tenente?

- Com certeza, Vossa Majestade, Senhora do Palácio Sul de Suryadevnahutbal. - O Tenente juntou firmemente os sapatos, ao tirar o cigarro da boca. - Bom...quem quer que seja o diabo que tenha assassinado a sua mãe, ele sabe falar muito bem Chinês! Esta caligrafia já deve ter pelo menos mais de dois mil anos!

Isaías arqueou as sobrancelhas ao inclinar a cabeça num misto de curiosidade e medo:

- O que é que diz?

- Não me apressem, esta língua é muitíssimo arcaica e é preciso saber-se muito bem que tipo de variante Chinesa é que estamos a lidar! - Resmungou o Tenente ao usar a luz do cigarro para decifrar a complicada língua.

Por uns momentos, houve um silêncio de cortar à faca. Nesse instante, viu-se como os dois homens eram muito diferentes: enquanto o Princípe Migntetiyte, Capitão da Resistência era pálido, e aparentava ser muito inocente para um homem de trinta e dois anos, o Tenente da Resistência Irmãozinho já tinha quarenta anos contados. O sorriso deste último era sempre cínico. Enquanto o primeiro era refinado e sonhador, o segundo tinha os pés bem assentes na terra. Muito antes de ela ter assistido a tal horrível espectáculo, já a Princesa tinha as faces coradas ao encontrar na rua, ainda por cima à noite, o Tenente da Resistência.

Encantada pela maneira como o Tenente fazia o seu trabalho, a Princesa piscou-lhe os olhos cor de avelã, ao observá-lo com aquele ar concentrado e austero.


Subitamente, ele esboçou um raro sorriso aliviado:

- Ah, por uns momentos fiquei assustado...este é Mandarim do século dezanove...mas há uns elementos na primeira e na última estrofe que me pareceram um pouco arcaicos...é uma típica trovi dos bairros Chineses.

O princípe Migntetiyte arregalou os olhos verdes, muito espantado.

- Dos bairros Chineses?! Mas os seguidores dessa maldita profecia não eram Japoneses?

- Não sei por que razão, mas o nosso assassino está a tentar jogar um jogo muito perigoso connosco. De qualquer maneira, este não é o momento para discutir estas porcarias. - Comentou ao apontar para o velho relógio de cobre de pulso com uma fénix gravada. - Precisa de mais alguma coisa, Princesa?

- Não muito obrigada, Tenente. - Sorriu a Princesa Swerdinada num gesto delicado.

- Não tem de quê, Vossa Divina Majestade. - Respondeu ele num tom distante ao soprar mais uma nuvem de tabaco para o ar. - Creio que é melhor voltar ao meu apartamento.

O Princípe Migntetiyte acenou impacientemente com a cabeça.

- Sim, é melhor, Tenente. Eu próprio levarei a Princesa até ao Palácio Sul de Suryadevnahutbal.

Suryadevnahutbal era o ponto mais alto da Cidade dos Deuses, construída sobre as fortes e firmes colinas atrás das montanhas do sul e do centro da Bellanária. Suryadevnahutbal era o districto da cidade onde só os Deuses, os feiticeiros da nobreza, as Fadas de alta patente e os sacerdotes poderiam visitar a Família Imperial Bellante. Naqueles tempos era também a mais imponente fortaleza e o lugar mais seguro de todo o Império Bellante.

Só a notícia de que a Imperatriz tinha sido assassinada por um mero bruxo de uma patente medíocre era suficiente para envergonhar a Princesa. E aquela criatura de mãos brancas e brincalhonas como duas folhas numa brisa calma de Primavera, ainda abalada pela trágica morte da sua mãe, sentou-se na cama manchada com o cheiro da morte.

Ao retirar das confortáveis e sedosas roupas de dormir um lenço perfumado com incenso de baunilha, ela fechou os olhos, um pouco repugnada.

- Tirem-me este horror daqui! - Ordenou ao apontar, sem oferecer um único olhar de compaixão, para o cadáver da Imperatriz.

O Capitão Migntetiyte arqueou uma das sobrancelhas, admirado, ao inclinar respeitosamente a cabeça.

- Não deseja ao menos pensar como é que será realizado o funeral oficial da sua Honrada e Pobre Mãe? - Perguntou no clássico e refinado dialecto da Capital da Bellanária.

- Não estou com apetência para tais salamaleques. - Resmungou a Princesa Swerdinada com um ar muito aborrecido enquanto abanava o lenço de um lado para o outro, como se fosse um leque. Embora usasse roupas muito ocidentais, a Princesa Swerdinada Di Neptunus continuava a ser a filha única do Imperador.

O Tenente Irmãozinho ofereceu o braço à Princesa.

- Se Vossa Majestade consentir, pode ficar no meu quarto de hóspedes, em Cyborg Town.

O Capitão Jaguar Sangrento lançou um olhar de desprezo em direcção ao homem com um sotaque rude do Norte.

Foi então que a Princesa levantou-se e interpôs entre os dois oficiais e disse numa voz muito doce:

- Agradeço a vossa hospitalidade, meus senhores. Mas não precisam de se preocupar comigo, eu estou bem. Eu posso apanhar um táxi para casa.

- Está a falar daquela velha residência em Cyborg Town?! Nem pensar, jamais iria deixá-la numa cidade infestada de...

Antes que o Capitão pudesse terminar a frase, os olhos de âmbar do Tenente fixaram-se nos dele com um desprezo tal que este desculpou-se ao abanar a cabeça.

- Peço imensas desculpas, Tenente! Esqueci-me completamente que o seu avô protegeu com unhas e dentes Cyborg Town dos Russos.

Inesperadamente, a Princesa deu a mão ao jovem e invísivel centauro.

- Sabes onde é que a Praça Utzurumaru em Cyborg Town?

O jovem centauro ficou surpreendido como é que a Princesa Swerdinada poderia confiar nele, sendo ele um demónio que ela não conseguia ver, e ainda por cima um Judeu, de quem a Honrada e Pobre Mãe tão falara em vida.

- Vossa Majestade confiara num rapaz que não consegue ver?

- Como diz o povo: as pessoas vêem melhor com os olhos fechados. - Sorriu a jovem princesa, ao tentar parecer mais forte do que realmente era.

E os dois homens concordaram que ela não era apelidada de "Flor de Baunilha" pela gente do Norte à toa.



Quinta-feira, 1 de Março de 2012

A Morte da Noite das Estrelas (Parte II)

Subitamente, às nove e meia, uma lustrosa limusina preta parou em frente do enorme arranha-céus neo-clássico ao estilo dos Estados Unidos. Aquela era uma das residências não oficiais da Imperatriz.
Tremi dos pés à cabeça: era um bruxo! Uma das janelas dos bancos de trás do carro abriu-se e revelou uma luva de pele negra a segurar numa boquilha de madeira cor de sangue, cuja apoiava um cigarro. Aquela mão...lembro-me que adivinhei que era a mão de um homem, mas era tão magra que fez-me lembrar a mão do próprio Diabo!

Um aprendiz de feiticeiro de vinte anos apressou-se a abrir uma das portas da frente: parecía ser Chinês. Precipitado, ele correu para o lado do carro onde o dono do cigarro estava sentado, como se estivesse morto de medo. Com a pouca luz dos candeeiros de rua, consegui ver o rosto do coitado: era mais velho que eu um ano.
Com a pele toda arrepiada, ele abriu ao de leve a porta de trás.
- Muito boa noite, Vossa Excelência! - Exclamou o pobre companheiro em Alemão a gaguejar, enquanto fazía uma vénia complexa e formal ao seu senhor.

Mas, em vez de responder cortesmente, as luvas semi-ocultas na penumbra da limusina pegaram numa pistola e alvejaram o rapaz inocente! Não consegui conter o horror ao ver o jovem a cair morto no chão. As minhas pernas não se conseguiam mexer de tão assustado que estava: era como se tivesse ficado paralisado com o choque, a própria boca recusava-se a dizer fosse o que fosse! Sem saber o que fazer, permaneci escondido atrás de um pessegueiro.

Depois de tudo isto, uma das luvas de pele finíssima guardou a arma, fazendo-a desaparecer no interior da limusina. Engoli em seco, ao tentar dizer a mim próprio que aquilo era tudo real. Ao mesmo tempo, estava curioso: o que é que aquela figura sinistra quería de Sua Majestade? Era tudo muito estranho! Não havía qualquer sinal de feridas causadas por balas na parte do corpo onde a luva tinha apontado.

Dentro da limusina, saiu um vulto escuro e alto, com os olhos cobertos pelo chapéu de feltro preto que usava. Tinha uns sapatos pretos a combinar com a gabardina de couro comprida. E de repente, parecia que a avenida estava gelada!

Mesmo que esteja habituado ao frio do Inverno precoce do Norte, eu estava a tremer de frio! Aquilo não era normal. O fumo que saía daquela boquilha transformou rapidamente a avenida amena numa paisagem digna de um filme de terror. Eu mal conseguía respirar na avenida. Respirava-se um ar pestilento e quase tóxico, onde uma espessa neblina prateada cobría o céu outrora coberto de estrelas. O fumo do cigarro sugou todo o oxigénio que ainda restava do jovem rapaz humano. Foi aí que o vulto coberto naquela gabardina preta estalou os dedos livres da mão direita, e o cadáver elevou-se até estar à altura daquela figura sinistra. Numa questão de minutos, ele sugou com os caninos afiados tudo o que era carne do corpo do pobre diabo, devorando com um espantoso apetite o coração e as tripas do rapaz Chinês. Aconteceu tudo muito depressa, mas quem quer que fosse o homem, ela era um filho da mãe completamente passado dos carretos! Já se passaram milhares de anos desde que os bruxos costumavam devorar a carne de outras classes.

Mais uma fumarada saiu daqueles lábios sangrentos e secos, e todos os candeeiros da avenida apagaram-se! Só se via as luzes fantasmagóricas de fogos-fáctuos a brilharem na penumbra daquela noite gelada.

Ao certificar-me que aquele vulto não me via, comecei a segui-lo. Enquanto subía as escadas de mármore branco, o vulto negro pisou o que restava do coitado do rapaz Chinês com um prazer sádico.
Decidi tomar um atalho para chegar mais depressa aos aposentos de Sua Majestade. Não faço a mínima ideia porque é que fiz aquilo. Acho que tive um pressentimento a dizer-me na cabeça que tinha de proteger a Imperatriz.

Entretanto, Sua Majestade estava a tomar banho. A Imperatriz é de origens Alemãs, ou pelo menos foi isso que ouvi dizer. Ao encontrá-la naqueles preparos tão embaraçosos, corei como um tomate.

- Perdoai-me se vos incomodei, Vossa Majestade, mas correis perigo de vida! - Gritei o mais alto que pude, enquanto corria ao de leve as cortinas que a separavam do meu olhar. - Tendes de sair daqui o mais depressa possível!

- Oh, meu Deus! Quem está aí?! - A Imperatriz gritou, aflita, ao olhar para todos os lados com os seus caracóis louros molhados e a sua figura eternamente bela.

Tinha-me esquecido completamente que sendo um demónio centauro, era invísivel aos olhos da esposa Alemã do Imperador.

Então, ouvi homens a sufocar nos andares inferiores, a gritarem de agonia e de terror, provavelmente cortados às postas por uma espada afiada e silenciosa. Era impressão minha ou aquelas vozes eram as dos guardas?!

Meu Deus! Se os feiticeiros experientes da Guarda Imperial da Resistência não podem contra aquele bruxo, que farei eu?

Pensei para com os meus botões, e como se os meus pensamentos fossem mais rápidos do que as minhas quatro pernas, corri o mais depressa que pude até ao armário. Mesmo assim, tentei espreitar pela fechadura o que iria ser da Imperatriz.

Ao ver que não havía luz, ela suspirou aliviada. Provavelmente estava a pensar que ao deixar a janela aberta, tinha feito uma corrente de ar consequentemente causando um assobio, fazendo-a pensar que tinha ouvido uma voz. Quando ela acendeu umas velas, viu que não estava ninguém no quarto luxuoso.

Estava a imaginar coisas que não existiam...A senhora de quarenta e cinco anos, mesmo assim, muito bela, ficou um pouco preocupada. Até dava pena, ela, coberta com uma túnica branca de dormir, quase transparente. Passar por um escândalo como aquele de ter sido vista com outro homem que não o Imperador deve ter sido um duro golpe para a Coroa Imperial Bellante.

Sua Majestade sentou-se numa chaise-longue verde-escura, enquanto que lia um jornal parecido com aquele que eu costumo vender.

O espelho reflectía a data de 30 de Maio de 1936 estampada no jornal. A fotografia principal era o título do cabeçalho do jornal sensacionalista: tudo preto no branco, com todas as letras maiúsculas em negrito.

A nossa Imperatriz foi apanhada com um vadio tatuado numa rua duvidosa!

O título explicava bem o contéudo do "artigo". Os fotógrafos - se é que se pode chamar fotógrafos a pessoas daquele jornal horrososo que é a Lagarta - nem sequer tinham tido a decência de tirar uma imagem em condições com o suposto "amante" tatuado. Que eu saiba há muitos bruxos Japoneses que têm tatuagens nas costas e ainda por cima, era um dia húmido e quente. A malta da Lagarta deve ter aproveitado o facto de que o aguaceiro tinha passado para conseguir uma imagem pouco nítida de Sua Majestade de frente e o tal "amante" de costas, perto de uma cerejeira em flor, numa esplanada com um ar muito boémio em Cyborg Town. Ele parecía-se com um outro bruxo qualquer. Sinceramente, não havía nada de interessante naquele personagem.

A Lagarta é mais conhecida entre os intelectuais como "A Última Palavra da Lagarta". As minhas orelhas captavam aquilo que poucos humanos tinham visto no rosto da Imperatriz naqueles meses: desespero, puro desespero!

Cá para mim, ela estava disposta a ser perdoada pelos Deuses por ter amado outro homem...eu cá nunca percebi como é que uma mulher ficar cansada de um homem. Ainda sou virgem. Como é que o Imperador estaria a reagir a tudo isto? A opinião pública mais conservadora de certeza que não a faria esquecer assim tão cedo aquele pecado! Melnjar IV (tinha sido baptizada, como era hábito na Bellanária quando pessoas estrangeiras se uniam à Família Imperial, o seu verdadeiro nome era Karolina Stephanie Von Habsburg) era conhecida como uma imperatriz muito conservadora, muito amarga, mais amiga do dinheiro do que do marido...Mas enfim, as pessoas gostavam dela...Como é que Sua Majestade tinha podido descer tão baixo?

Após uns minutos de um silêncio apenas perturbado por um pequeno soluçar da Imperatriz, escutou-se um repentino forçar da porta do último andar. Um feixe de luz atravessou a fechadura e a porta abriu-se sozinha, à medida que Sua Majestade olhava, muito envergonhada e nervosa para o jornal.

Era o homem que tinha devorado os órgãos do pobre rapaz Chinês!

- Oh...És tu! Porque é que não me deixas em paz? O que é que tu queres de mim? - Perguntou a Imperatriz em Alemão, ao cobrir os seios com ambas as mãos.

Eu estava a tremer que nem gelatina, preocupado com a segurança de Sua Majestade.

Mesmo assim, ela continuava a encarar o bruxo, num misto de desprezo e de medo.

- Fizeste com que a minha vida caísse na lama, destruíste a minha alma pura! Agora que não me resta mais nada senão vergonha e desonra, porque é que não me deixas descansar em paz...?

O homem não respondeu. Aproximou-se dela e tirou uma das luvas. Sua Majestade só podia imaginar o que é que iria acontecer a ela a seguir, fechou os olhos e disse para consigo própria:

Isto é só um pesadelo, isto é um pesadelo, só pode ser um pesadelo!

Entretanto, eu vi que os lábios frios do bruxo estavam a tocar na pele branca do pescoço da Imperatriz. Deve ter sido uma sensação arrepiante para a pobre senhora! Até parecía que fora o próprio Diabo que a beijara! De repente ela sentiu que uma lâmina passeava perto do pescoço dela, quase numa carícia. Como que se fosse um sabre vindo do Inferno, a lâmina arrancava-lhe uma boa parte pescoço!

Ao provar com uma língua exageradamente longa e bifurcada o sangue que escoava do pescoço dela, ele beijou uma vez mais o pescoço, desta trincando a parte tenra da pele que ainda não tinha sido esfolada.

Eu estava a suar em bica, arregalando os olhos...Nunca pensei que um bruxo fosse capaz de cometer uma coisa tão horrível!

A Imperatriz ainda quis gritar por socorro, mas o seu agressor conseguiu abafar o som de qualquer forma, ao beijá-la nos lábios.

Depois, uma voz fria e arrepiante disse suavemente:

- Gute Nacht, meine feines Liebe...

Depois de ter pronunciado aquelas palavras, o vulto não disse nada, ao deixar a Imperatriz estatelada e ferida no chão. Retirou dentro da gabardina de couro uma outra espada e ouviu-se um som parecido com o sibilar de um vento gelado de Inverno, que capturou no aço a alma da pobre Imperatriz. Eu e Sua Majestade tínhamos visto quem é que era o assassino perverso; o grito que eu quería dar não saía da garganta. Estava demasiado assustado para fazer fosse o que fosse.

No meio da noite, escutou-se uma gargalhada maníaca de um homem, semelhante ao ribombar de um trovão, que arrepiou as Fadas da Floresta de Cristal, uma risada de hiena que provocou o terror nos corações e almas de todas as criaturas que viviam na Bellanária!

Não posso dizer mais...

Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2012

A fada com cauda de vaca...

Ano Cristão de 1589...
Era uma típica noite de Fevereiro, uma daquelas friagem que um homem nem se consegue aguentar a segurar-se num cavalo. Por adentro da mata do Norte, silenciosa e com uma nebilina espessa e quase prateada, iluminada por uma lua crescente e amarela, grande como um prato de ouro, ele cavalgava, com esperanças de chegar a Petrybloom a tempo. Quem lhe mandara celebrar o fim dos Cinco Dias Vazios com os primos a Cyborg Town? Tinha sido uma festança, era o que tinha sido. E agora, cansado, a bocejar pelo caminho, o pobre coitado do guerreiro e capitão da Guarda Este de Petrybloom, via-se Grego para ver onde é que era o caminho para a sua terra natal. Naqueles tempos, tinha-se de se atravessar a ponte do Cvnark, o rio mais a leste da ilha principal. Para além do mais, tinha de se atravessar a zona mais inclinada dos Alpes das Sereias, por montes calcorreados de arbustos de framboesa e de sementes de arroz. Com o rio lá em baixo, a terra de Petrybloom parecia ser o único seguro que alguma vez um guerreiro teria no Norte. As pessoas de Petrybloom - tal como ele - prefereriam seguir de barco o rio Bênção até ao mar e atracarem nas Ilhas da Tartaruga Flutuante de Jade do que terem de enfrentar os perigos que havía nos Alpes das Sereias na zona mais para os vales a leste.
Nessa noite, ele viu que alguém o seguia. A princípio pensou que era um dos guerreiros Japoneses que costumavam patrulhar os Alpes das Sereias em busca de alguma vítima para perguntar pelos documentos, ou se tinha algum saco de arroz ou um odre de Frambinam que estaria a esconder para vender aos seus amiguinhos de leste. Mas depois, reparou que era uma mulher, a filha de um camponês, com certeza. Não conseguia ver muito bem, porque estava escuro, mas ela parecia estar vestida com as roupas tipicamente Bellantes, montada em qualquer animal de grande porte e escuro.
Esboçou um pequeno sorriso, iluminado pela candeia que levava numa das mãos bronzeadas, semiocultas pela túnica bege-clara de uma jovem filha de camponeses, ela falou numa voz melodiosa:
- É a primeira vez que vem por aqui, ò respeitável Capitão?
Como quem não quer ficar ao lado de de tamanha delicadeza, o capitão da Guarda Este de Petrybloom acenou convictamente.
- Na verdade, menina, nunca devia ter ido por aqui...Arrisco-me a ser preso por um samurai de um bruxo qualquer...Estamos em terras de Bruxos, sabía? - Respondeu ele amargamente, ao abrandar o passo para que ela pudesse ver o seu rosto por debaixo do chapéu adornado com três longas penas de faisão, as sandálias de couro castanhas-escuras com um padrão branco e preto a indicar que era um oficial de posição. A tiracolo, o nosso capitão trazía uma espada de obsidiana de duas pontas afiadas, polida e embainhada num cinto de pele de búfalo das planícies do Deserto da Sabedoria. Como roupa, usava apenas uma tanga de caxemira para as noites geladas de Inverno e uma capa de pele de jaguar das ilhas de Shunrasen, mais a Sul. Iluminado pelas duas candeias que trazía, penduradas na sela do cavalo, ele assemelhava-se a um verdadeiro guerreiro dos seus trinta anos.
A filha do dono de cavalos - sim, porque uma mulher que soubesse montar em cavalos só podia ser filha de um homem que tivesse um rancho apropriado para eles - sorriu uma vez mais.
- Ora essa! Quem é que poderia querer prender um homem tão valente como o senhor? Um dos Falcões do Este?
Ele suspirou, pois sabia que essa alcunha só era dignamente merecida aos oficiais de patente superior ao dele. A verdade é que os Guardas do Este eram os únicos que tomavam conta da pobre população de Petrybloom, que era uma das poucas que vivia pacificamente no Norte da Bellanária.
- Há muitos homens lá em Cyborg Town que me preferiam ver morto do que como estou aqui, perante vós. - Disse o Capitão, com um ar amargo. - Só espero que chegue a Petrybloom a tempo! Os homens dos Senhores da Magia Negra iriam dificultar e de que maneira a minha viagem se chegar ao rio ao amanhecer.
A jovem de longos cabelos negros soltou uma risadinha maliciosa:
- Se calhar eu posso ajudar-vos, Capitão. Sois um homem de bom coração, e por isso, acho que os Deuses não se zangaram comigo se o salvar do perigo de ser decapitado por uma katana.
Perante esta frase, o homem apercebeu-se que estava na presença de uma fêmea de um centauro, com as costas perfuradas por um enorme buraco cheio de vermes e a ver-se o seu estômago.
Estas criaturas são mais consideradas como fadas do que fêmeas de centauros ou de outra criatura masculina. Ela aconselhou o Capitão para ficar à espera dela, numa saliência do monte, onde misteriosamente apareceu palha para o cavalo alimentar-se e recuperar forças. Muito agradecido, ele fez exactamente o que ela lhe pedira e esperou, com o cavalo amarrado a uma rocha, e a comer o farnel que tinha trazido de Cyborg Town.
E com aqueles encantos típicos de uma fada, ela fingiu-se inocente e graciosa, ao descer como um relâmpago o monte escarpado, parando só no rio que dividia as terras dos Bruxos e as terras dos Humanos. Estavam ali dois homens. Ficou surpresa, pois não passavam de dois jovenzinhos de dezoito anos, armados apenas com lanças.
A fada soltou um pequeno bocejo, e com isso, contagiou os dois sentinelas, que adormeceram num abrir e fechar de olhos.
Depois de ter atravessado o rio com o cavalo a nadar como nunca tinha nadado, o Capitão da Guarda Este agradeceu à fada com cauda de vaca e pernas de cavalo a sua preciosa ajuda. Ela desapareceu...assim que o Sol nasceu!

Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012

A língua tramada e uma conversa de raparigas

Continuação de "Especial Dezembro" ...Uma vez mais, a vida real inspirou-me a fazer qualquer coisa em Primeira-pessoa.


- Estava tanta gente no último exame de Bellante do Sexto Grau, acredita em mim! - Uma voz mais nova do que eu acordou-me. Eu cá tinha a cabeça inclinada para o outro lado da janela do autocarro.
Eu acreditava nela...O Bellante é uma língua tramada, principalmente para uma rapariga como eu que teve de estudar durante o Verão inteiro para conseguir perceber os diferentes dialectos que existem na ilha principal, como é que se escrevem os caracteres, quais são os sistemas em que se usa em cada um deles, e quais são os equivalentes em cada caso sintáctico. Estava exausta depois de no dia passado ter dado uma queca com o Pedro. A maior parte das miúdas e rapazes da minha idade já sabem fazer poemas ou ler o Bellante Arcaico do Norte, que é uma coisa muito esquisita e muito parecida com o Japonês e eu que me dá em doida sempre que os professores me perguntam qual é a conjugação formal do verbo "ver" ou "receber", ou "ser", ou lá o que o valha.
Mas enfim, que é que pensas que eu sou? Uma coscuvilheira que anda a ouvir a conversa dos outros? Só estava a tentar ver se conseguía perceber o dialecto dela, que devia ser da Cidade dos Deuses.
Bocejei. Sentía o aroma rico e formal a pão-quente com canela doce que emanava das palavras refinadas dela.
A segunda jovem de cabelos acastanhados e encaracolados (tal e qual os caracóis que por vezes aparecem na mousse de chocolate às terças-feiras no jantar) falava com um sotaque arranhado da Floresta de Cristal, mais informal, um pouco apressado nas sílabas, como se estivesse impaciente. Por mim, diria que elas tinham dezasseis a quinze anos. São mais maduras que eu, disso tenho a certeza. Pensei para com os meus botões.
A acompanhá-las, havía outra miúda, esta mais velha que eu um ano, de cabelo escuro e curto, olhos amendoados. É do Norte, e apercebi-me imediatamente disso quando cumprimentou as amigas no sotaque informal da Cidade Perdida, mais familiar para mim do que um lanche de arroz de camarão com algas doces a decorar o arroz que levava comigo.
- Vocês acham que vamos chegar a tempo? - Perguntou ela, enquanto ajeitava a carteira preta aos quadrados.
- Só se o Sr. Director não reparar que estamos lá. - Respondeu a rapariga com sotaque da Cidade dos Deuses. Tinha sardas na cara pálida e um cabelo alaranjado, com olhos claros.
Todas nós estávamos a caminho da Escola de Dois Dedos Perto da Lâmina
de Obsidiana (um nome muito apalavrado para o equivalente a uma secundária para pessoas da burguesia como jovens humanas e bruxas de famílias menos prestigiadas). Por que é que eu ia com elas? Bom, acontece que a minha Escola secundária na Cidade dos Deuses não tinha espaço suficiente para fazer o exame a mais de duzentas raparigas, que é exactamente o número total das miúdas (incluindo eu) da minha turma. É um bocado estranho, mas a minha turma só tem dez rapazes. Talvez porque eu tive que ir para uma turma de burras e de pessoas que ainda andam muito atrasadas na matéria em relação ao mundo Bellante e às línguas e à Magia. A maior parte dos rapazes da minha idade estão quase para ir para uma faculdade de magia. E como o meu pai nunca quis saber da minha educação como uma jovem Bellante, lá tive eu de me instalar com jovens humanas e com fadas e com bruxas de famílias menores. Na verdade, é muito melhor do que estar à beira daqueles gigantones dos Bruxos da minha idade. Eu, que sou um pouco alta, sou levada ao palmo por aqueles rufias de Cyborg Town e de Losjafhden! Se fosse levada para uma turma digna da minha classe e do nome da minha família, tinha de aturar uns quantos setenta magricelas de pele ressequida pelo gelo do Norte e borbulhados a olharem para mim como se eu fosse um gelado numa seca!
O mais engraçado de tudo isto é que eu não conhecia aquelas raparigas de lado nenhum, e no entanto, simpatizava com elas.
- Ele estava uma fera, o Sr. Director de Turma! - A mais nova da Cidade dos Deuses conteve um risinho embaraçado.
- Só espero que tenha tomado um café, ainda nem são oito da manhã! - Comentou a de cabelos encaracolados da Floresta de Cristal.
Deve ser difícil para os feiticeiros mais conservadores - e já agora, mais velhos - terem alunas como nós. Sabes como é, nós somos todas de uma geração que está a milhas da deles! Já para não falar de uma aluna como eu, que está sempre a falar nas aulas. Somos completamente diferentes das raparigas dos Anos 20 ou dos Anos 30 do século passado. Mas isto é mesmo assim...acho que é por isso que são homens a ensinar raparigas e mulheres a ensinar rapazes. Eu também tenho professoras, e o mesmo acontece com os meus colegas da Cidade Perdida, de Cyborg Town e de Losjafhden. É muito mais justo, não achas...? Só depois dos Anos 70 é que começaram a haver aulas com turmas mistas.
Porém há uma coisa que nunca muda: a maior parte dos directores de Turma são bruxos muito velhos, muito resmungões, e muito exigentes. Felizmente que já não existem castigos corporais! Havia professoras do sul que picavam uma jovem desobediente com um espinho de agave - uma planta que, na Ilha principal da Bellanária, só existe na Vila Enublada - na mão. A Sara diz que doía que se fartava e que ao cabo de cinco minutos, a fada que a tinha castigado já lhe tinha retirado o espinho. Não queiras saber quais eram os castigos que os Bruxos do Norte aplicavam aos jovens aprendizes e demónios, porque era muito pior. Aliás, acho que nessa altura - há mais de setenta anos - os homens nunca ensinavam as raparigas. Os Humanos eram sempre ensinados pelos pais, e só aos dezoito anos é que podiam alistar-se no Exército Bellante.
As coisas mudaram muito pela Bellanária, e eu estou tão contente que não nasci na mesma altura que a Sara!
Ora bem, aonde é que eu ia? Ah, sim. Então, as raparigas tinham entrado na Estação Manuelina, que é uma das estações principais de comboios na Cidade dos Deuses, que tem inúmeras paragens de autocarro.
Via-se logo que a ideia de terem um exame com o Director de Turma não lhes agradava nada. A dos cabelos alaranjados acendeu um cigarro, enquanto comentava:
- Isto é muito injusto! Termos que aguentar aquele sapo do Alho do Palácio das Reuniões num exame da Língua Bellante...
A rapariga do Norte esboçou um leve sorriso.
- Pelo menos não temos que aturar os rapazes do 1º ano da Faculdade de Magia Universal de Cyborg Town. - Disse ela, ao pentear o cabelo.
Foi aí que eu decidi meter o bedelho e lançei um olhar espantado para as três:
- Vocês conhecem o Alho? - Exclamei, admirada.
- É claro, ele foi o meu professor de Língua Bellante no 1º Grau. - Respondeu a rapariga de cabelos alaranjados com sotaque da Cidade dos Deuses.
- E também foi o meu! - Acrescentou a fada da Floresta de Cristal. Tremeu com um ar de quem não gostava de pronunciar a alcunha do homem com o sufixo honorífico Bellante - Ele é sinistro, não é?
Acenei com a cabeça, ao aproveitar o semáforo vermelho para abrir a caixa onde estava o meu lanche.
- Sinistro é a favor!
Então, a rapariga da Cidade Perdida reparou na minha marca de família. Ficou parva, enquanto olhava para mim de esguelha, um pouco desconfiada.
- Eh lá, tu és a Jessica Von Tifon! O que é que estás aqui a fazer?
Pousei os pauzinhos com que ia comer o arroz e franzi o sobrolho, aborrecida.
- O mesmo que vocês: a ir para o exame de Língua Bellante do 6º Grau, que é que acham? - Perguntei, com um ar nada surpreso. Não é raro as pessoas reconhecerem-me como a neta do Duque Von Tifon, mas até parece que eu sou uma das noivas do Conde Drácula ou coisa parecida. É muito chato ser-se famosa. Quer dizer, só porque eu tenho aparelho nos dentes, os olhos azuis, esta altura descomunal e um ar de má isso classifica-me como uma Von Tifon, é isso?
Suspirei quando elas ficaram com um ar envergonhado, como que a dizer: "Pois claro, somos mesmo estúpidas..."
- Não faz mal, também posso ser vossa amiga. - Disse eu, ao esboçar um pequeno sorriso, enquanto que dedilhava nos meus caracóis cor de sangue. - Então, quais são os vossos nomes?
- Eu chamo-me Júlia Nestorovna Kaminskaya, sou humana. - Disse a de sardas com cabelos alaranjados e lisos.
- Eu sou a Oshiro Riko, filha de bruxos de patente baixa. - A mais velha da Cidade Perdida sorriu ao inclinar a cabeça.
- O meu nome é Sophia Xocolatlicue. - Timidamente, a fada acenou com uma das mãos, mas de cabeça erguida. - Sou uma dríade.
Vou-te explicar por que razão nós na Bellanária quando nos apresentamos a alguém, temos de dizer que classe é que somos: é uma questão muito antiga, pela qual a língua Bellante se rege em graus de formalidade.
Assim, eu podia saber como é que trataria as três. De qualquer maneira, eu não ligo muito a isso. A língua Bellante é mesmo tramada! Mas ao menos encontrei raparigas da minha idade - ou que pelo menos, compreendem-me. Começámos por falar sobre como eu era uma nódoa a Bellante, e elas disseram que não era assim tão difícil. Ao chegar à Escola Dois Dedos Perto da Lâmina de Obsidiana, não estava mais sozinha. Tinha três amigas muito simpáticas!

Sexta-feira, 20 de Janeiro de 2012

O Barco Precioso


Silêncio, porque agora vos contarei o resto da história sobre Claudinitiana (a Sacerdotisa da Ilha de Melxocolatlbilar) , o jovem Homem Livre e o pérfido Capitão da Guarda.
Passado o primeiro ano de liberdade que todo o escravo tem de cumprir para ser considerado oficialmente um homem Bellante, ele teve como esposa a Sacerdotisa da Ilha de Melxocolatlbilar e tornou-se assim o Primeiro Sacerdote.
Quando o filho de ambos tinha um ano, Claudinitiana decidiu pôr-lhe um nome oriental, uma vez que era mais parecido com o pai. Pelo sábio conselho do Capitão da Guarda da Ilha, o rapaz ficou com o nome de Lin Zhou - que, em Chinês, significa, Barco de Jade. Lin Zhou era tal como qualquer bebé, energético e curioso. Era difícil para a mãe não olhar para ele com carinho. Por ouvir mais as conversas dos homens e dos feiticeiros estrangeiros, Lin Zhou tentava pronunciar mais as vogais e as consoantes com um sotaque asiático, o que fazia os deleites do Capitão da Guarda, que era o seu padrinho.
Porém, a felicidade e as brincadeiras e carinhos da mãe orgulhosa, sozinha com o seu pequeno rebento dentro da gruta oculta pela cascata sagrada não durariam por muito tempo. Um dia, na ausência de Ishikawa Rukorou, do Sacerdote ou de outro homem, ao enganar a Sacerdotisa Claudinitiana tocando-a com os lábios venenosos de demónio na pele, o maldito imobilizou a pobre sereia ali mesmo. Aproveitando o facto que estava paralisada com o veneno, o Capitão pegou na criança com as garras e fugiu, soltando gargalhadas histéricas.
Quando a Senhora Claudinitiana recuperou a consciência tirada pelo veneno soporífero, ela viu que o Mestre Rukorou Ishikawa (o Rei dos Magos), a Senhora Roshini (a Rainha das Kinnaries, fadas com corpo de metade cisne, metade mulher), a Mestra Cuixtletleuctic Citlali (Estrela de Prata), o Mestre Zollin (Lança, irmão mais velho de Citlali), o Senhor Jutierkajam (o Deus do Vento Selvagem e Dourado) e o Mestre Ichtaka Ti Quetzalxoquiyae (Segredo de Esmeralda) estavam todos ao redor dela, muitíssimo aliviados. Eram eles os restantes Cinco Guardiães das Placas dos Elementos. Mas isso fica para outra altura.
A primeira a proferir uma palavra foi a Mestra Cuixtletleuctic Citlali, que apesar de ser a mais nova, era muito talentosa com as artes mágicas e ocultas.
- Senhora Claudinitiana...estais viva! - A jovem bruxa de etnia Viking e Chinesa esboçou um leve sorriso.
Sim, graças aos Deuses, o Capitão da Guarda - que afinal de contas, era um bruxo demoníaco disfarçado, que ainda praticava as artes proíbidas - tinha-lhe poupado a vida. Mas, e...quanto ao seu querido Lin Zhou? Que era feito dele? E do seu marido?
Por acaso do destino, o pequeno Lin Zhou escapou do demónio que o queria entregar ao cuidado de outros da sua odiosa espécie para o educarem como seu escravo, e foi cair no lustroso navio de comerciantes Chineses que por aquele oceano Atlântico passavam. Com a ajuda das correntes do mar - e com um pouco de sorte abençoada pela Deusa Shamanarta, aquela à qual os Chineses chamam de Guanyin, a criança foi parar às costas longínquas da China.
Lin Zhou foi então, uma vez mais, desviado do caminho do bem por invasores mongóis. Criado com os cavalos e para a guerra, o jovem filho da sereia precocemente mostrou os seus poderes sobrenaturais. Os seus descendentes começaram, lentamente, a suspeitar que descendiam ou de um semideus, ou de um demónio. E, eles estavam confiantes, que um dia, o poder da Água os chamaria...
Mas esse será assunto para outro conto, pois é aqui em que se encerra as aventuras de Lin Zhou e dos seus descendentes...por agora.

Notas da Autora - com tudo isto, esqueci-me que a imagem original de Claudinitiana tinha os cabelos pretos e tinha um ar mais da América Central... bom, talvez possa dizer que, com o tempo, as sereias mudam de aspecto, não acham...?

Segunda-feira, 16 de Janeiro de 2012

Paisagem fogosa Bellante do Norte...



A Lua dos Sonhos...ela não é maior que uma pequena taça de champanhe, e no entanto, durante séculos, fora procurada por vários homens... Começarei pelo dia seguinte de Citlali, depois de esta ter visto o feiticeiro da espada de aço. Não sei se já vos falei dos vários tipos de feiticeiros brancos, pois ficai a saber que havia um nessa altura que tinha um dedo todo ele feito de cristal, e que pertencia a uma das novas gerações de Encantadores das Montanhas que não tinham de todos antepassados da América Central. Esse homem, de túnica verde-escura e com um polegar esquerdo de cristal tinha como nome Nakamura Mohaku, e era um dos mais fiéis servidores do Império Bellante. Trabalhava por vezes para Ishikawa, mas gostava mais de vigiar as terras do Norte, para saber se havía algum demónio que fosse considerado como uma possível ameaça às populações humanas.




A mão esquerda dele era versátil com os cristais, pedras preciosas e jóias, transformando-as em amuletos poderosos contra a Magia Negra - arte maldita e proíbida entre os guerreiros do Exército Bellante. A maior parte dos feiticeiros que trabalhavam para o Império iam à paisana, e a sua principal missão era vigiar as províncias bellantes. Usavam espadas maravilhosamente forjadas com dois gumes, de obsidiana, tão afiadas quanto espadas de aço normal. O Imperador começara a contratar estrangeiros porque sabia que estes jamais seriam motivo de desconfiança dentro dos bares, pensões ou casas de bruxos.




Ora, o jovem Mestre Mohaku estava a investigar a casa da mãe de Citlali Cuixtletleuictic porque tinha sido avisado pelos seus informadores que a senhora daquela casa era uma bruxa muito perigosa, e segundo porque ela costumava encontrar-se - sabe-se lá como - com o seu primo, Kuang Lao. Kuang Lao era um dos muitos nomes que os Deuses tinham posto na lista negra desde que tinham descoberto que o seu pai era um dos servos mais leais do Assassino do Amor.

Mohaku estava como sempre, a rondar a zona antiga de Losjafhden, com o capuz cor de musgo na cabeça e a espada de dois gumes embainhada na cinta de couro. Caminhou rapidamente, como se fosse um transeunte desinteressado. O sol estava a pôr-se, fazendo com que a floresta e campos em redor da vila Japonesa tomasse um tom avermelhado, quase da mesma cor outonal das papoilas e das donzelas Japonesas(1). Ao longe, conseguia ouvir-se o badalar metálico, sempre pausado, do ferreiro a preparar, dentro da sua casa humilde, mais uma arma. Naqueles tempos conturbados, nunca se sabia. E ele, o jovem feiticeiro, apeou-se numa das praias da cor suave e agridoce das oliveiras das margens ocidentais do velho Rio Bênção, que corria tão vagaroso como nunca.

Os dedos enluvados acariciaram a areia macia. Que quietude que ali se vivia naquela vila Nortenha...e pensar que aquele já tinha sido outrora, há cem anos atrás, um sangrento campo de batalha. O reflexo do rio mostrava um rapaz dos seus vinte e tal anos, deitado na areia, com a espada encostada aos seus braços de atleta. Mohaku era de facto um jovem homem muito atraente, se é que pudemos chamar a um filho de camponeses transformado num guerreiro um homem formoso. As pessoas que o conheciam verdadeiramente perguntavam sempre se não queria casar com uma das suas filhas. Os Bellantes eram sempre assim: só porque um jovem era mais velho que vinte anos, já pensavam que tinha idade para se casar. Como se não se bastasse, as pessoas não levavam muito o trabalho dele a sério. Pelo menos as pessoas do Sul. Já se tinham esquecido o quanto precisavam de alguém para as proteger. Se bem que os Bellantes lhe faziam um pouco de pena...

Suspirou, meditativo.

Subitamente, ele viu que um pequeno barco se dirigia até à vivenda da casa da mãe de Cuixtletleuictic Citlatli. Flutuava sem pressas, como quem não quer a coisa, como uma barca de amantes.

Activo como nunca, mas sempre calmo como a própria floresta, Mohaku levantou-se, e discretamente, seguiu com os olhos a barca. Afigurava-se-lhe uma silhueta masculina. Porém, não se parecia nada com o velho Kuang Lao. Parecia até ser um homem bastante bem feito de músculos, como se fosse um guerreiro. O reflexo de uma longa espada de aço brilhou no crepúsculo. Era definitivamente um bruxo!

Uma voz grave e solene cumprimentou ao tirar o chapéu bicudo de palha:

- Boa noite, meu jovem guardião da paz...

Mais para não fazer figuras tristes do que para ser descoberto, Mohaku acenou respeitosamente com a cabeça.

- Muito boa noite, mestre desconhecido. Para onde ireis vós, ó Antigo Tio? - Perguntou, num ar informal, como se fosse o tipo de conversas que se esperaria numa sauna no Sul na Cidade dos Deuses, e não numa vila tão velha como Losjafhden. No entanto, o tratamento por mestre e por "tio" demonstrava ao velho guerreiro (que, pela voz rouca e cansada, devia estar a voltar da guerra lá naquelas distantes ilhas de outro oceano) que o jovem feiticeiro era simpático e tinha sido educado à boa maneira Japonesa.

- Venho visitar a minha tia Onisamatzeka Kazue, pobre coitada, que anda mal da barriga. - Respondeu o velho guerreiro, enquanto ancorava a barca perto da areia, num sítio onde não houvessem pedras. - Sou filho de ervanários, e pensei que uma das poções que trago à mulher lhe alivie aquela cabeça, que graças aos Deuses, ainda está em plenas condições.

Mahuko encolheu os ombros, fingindo-se comovido. Ora que essa, pensou um pouco desapontado. Era só um velho ervanário demoníaco. Não fazia mal a ninguém um oni decrépito que, na meia-idade, pensara remendar a sua existência maldita em fazer asas dos seus talentos.

Por isso, deixou que o velho demónio pusesse os pés descalços e grandes na areia.

- Muito obrigada, meu jovem. - Quando o homem se dirigiu para sudoeste, onde vivia Onisamatzeka Kazue, mudou subitamente de direcção, mais para os lados onde ficava a casa dee Citlali. Como lhe pareceu ter ouvido um tom trocista naquelas palavras, Mahuko seguiu o homem apressadamente, preocupado com a jovem protegida de Ishikawa Rukourou!

(1) Flores avermelhadas de espécie única e rara na Bellanária que têm o aspecto de uma mulher com um quimono vermelho e dourado.

(2) Os apelidos estão da maneira que apareceriam na língua de origem, ou seja, em ordem vêm primeiro, e só depois vem o primeiro nome.

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=21AYfo_2Cf4