Sábado, 4 de Julho de 2009

um feitiço aromático e amargo (2ª parte)


Soltando uma risada muda, Samiel esboçou um sorriso, enquanto mexia na água cada vez mais.
A seguir, olhou novamente para a princesa, que enfadada, contava as estrelas no céu, que se podia avistar da varanda.
- Eleonora. – Chamou ele, num tom normal. – Sei que pode ser difícil para ti acreditar no que eu te estou a dizer, mas a verdade é esta: a tua mãe usou-te como se fosses uma peça de xadrez, a única coisa que importava realmente para ela neste atribulado incidente era o dinheiro que ela poderia ganhar às custas de ti e do Indra.
Com uma das mãos enluvadas sobre o braço direito dela, ele acrescentou num tom familiar, como se fosse irmão mais velho ou até mesmo pai dela:
- Olha pelo lado bom; se não fosse eu a raptar-te, já estarias morta, é isso que tu desejarias para a tua vida, que acabasse assim de repente, quando ainda és muito nova e…
- Talvez sim! – Respondeu ela, aborrecida, sem quer dignar-se a olhar para o maldito feiticeiro. A sua voz tornava-se cada vez mais triste e insultada – Eu e o meu Indra éramos muito felizes, até vós chegardes e tirar-me dos braços do meu querido amado, e isso é uma coisa que não suporto, eu amava-o de verdade!
- Eleonora, tu não sabes o que é que dizes! – Samiel tornou-se cada vez mais frio, de mãos no bolso, passeando pela suite, soprando impacientemente anéis de fumo para o ar, quase acabando o cigarrito. – Não te vou fazer a vontade de morreres aqui, agora mesmo, só porque abriste, por uma vez, os teus olhinhos ingénuos e patéticos; na vida real, não existem príncipes encantados. Apenas homens que quererão tudo de ti.
- Oh, deixai-me em PAZ!... – Berrou ela, desesperada, correndo a cama, só para se enfiar nas almofadas, com as mãos agarradas às alcovas brancas de seda, deitada na espécie de sofá de veludo macio e suave, com uma espiral, que se desenrolava no tecto, transformado em várias serpente de esmeralda, de linho, decorando toda a parte de cima de tecto. – Seu desnaturado, nem vos passe pela cabeça atrever-se a tocar-me num único cabelo que seja, senão nem sabeis o que é me dá e depois eu viro UMA FERA!
- Mas…Que gritaria é essa toda, Eleonora? – Exclamou o homem, deveras espantado, levantando as sobrancelhas, e tirando a boquilha da boca, pendendo-a numa das luvas negras, apontando-a ameaçadoramente à rapariga, com o olhar mais severo. – Lembra-te, que esta é a minha casa, e se ousares falar-me outra vez nesses tons, então é que terei mesmo de tomar medidas drásticas!
Subitamente, ao acabar de dizer estas mesmas palavras, o homem fez, ao deitar a poção que tinha feito para cima dela, ele fez com que toda a roupa, maquilhagem e aspecto bonito que ele tinha dado a ela fosse retirado, acrescentando-lhe uns cortes horríveis, frescos, extremamente dolorosos, feitas pelas espadas invisíveis, e, quanto mais ferida ela estava, mais triste e irritada ela começava a ficar.
Olhando, rente na cama, para o seu lindo vestido, o sangue prateado e da família real, a manchar porcamente o vestido, que agora parecia uma poça de paixão e tristeza, morte. Cheirava pior do que se estivesse enlameada, e, na verdade, apetecia-lhe chorar só de ver o estado amargo e áspero em que tinham ficado as roupas. Tocou nos lóbulos, e reparou em dois pontos ardentes vermelhos nas suas duas orelhas. Os brincos já não estavam mais lá.
O que raio é que ele estaria a fazer…?

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

um feitiço aromático e amargo (1ª parte)

De repente, um homem alto num roupão roxo de dormir de veludo com uma fita de seda vermelha, e de cabelo ruivo, rebelde, curto, entrou dentro da suite, seguido por um enorme tigre de estimação, de pelo farfalhudo e fofo, rosnando com uma voz terrível e zangada, parecendo acalmar até ao mais feroz dos furacões. Com uma boquilha de âmbar preta nos lábios e luvas de cabedal a cobrir as garras afiadas e desumanas assustavam imenso princesa, mas o que mais a perturbava eram o conjunto no seu todo, ficava aterrorizada só de pensar que tinha sido enganada por um homem como ele, aceitando comida vinda da cozinha dele…! Como é que poderia ser ingénua a tal ponto!?
As acusações que ele tinha feito à sua mãe, não podiam de forma alguma serem verdadeiras. Ela e Indra amavam-se, e não havia outra maneira de explicar esse facto. Com aquela cobra venenosa, era preciso ter-se o maior dos cuidados.
Os olhos verdes e penetrantes do homem perscrutavam a lamuriosa Ariana, e, quanto mais a fixavam, mais paralisada ficava. Estava cheia de medo, embora não o pudesse demonstrar, e, isso, era uma cena horrível de se ver para a outra jovem. Um frio tremendo congelou o corpo inteiro da rapariga, antes que ela pudesse fazer alguma coisa, e, petrificada, muito branca, quase sem poder se mexer, viu os pés cobertos pelos chinelos de linho azuis do feiticeiro aproximarem-se cada vez mais, num ruído surdo.
O fumo que geralmente, acompanhava Samiel, não se fez esperar, e, subitamente, uma onda de fumo de hortelã-pimenta mergulhou a pobre fada num sono hipnótico, sem que esta pudesse manter-se consciente, do que se estava a passar.
- Ariana. – A voz aguda do feiticeiro ecoou gentilmente em toda a sala, como se fosse um sibilo trazido pelo vento. – Já não devias estar a dormir?
Eleonora sentiu um arrepio quando a sílfide respondeu num tom insensível, e dormente, quase o mesmo que ela usara para se apresentar à princesa:
- Meu senhor. – Ela dizia aquilo num tom tranquilo e adormecido, como se estivesse a bocejar.
A garra direita do feiticeiro apontou por fim para a porta que dava acesso até ao corredor.
- Então vai lá dormir, minha querida. – Sussurrou novamente o feiticeiro, acariciando os caracóis dela com uma estranha ternura. – Vai para a tua caminha, que já são horas de tu estares a dormir, meu pirilampo.
Imediatamente, a rapariga, não obstante, obedeceu, dando os seus pequenos passinhos, qual sonâmbula, num estado completamente inconsciente, não escutando nada do que as pessoas poderiam lhe dizer, pois ela, agora, estava sob o poder do feiticeiro.
Aquilo dava imensos calafrios à princesa, pelo que esfregava constantemente os braços com o ronronar subtil do gatão do senhor do castelo.
Odiava-o, pela sua forma de ser, por disfarçar os seus sentimentos, pelos seus olhos verdes de réptil, por aquela língua peçonhenta e venenosa, e, só de pensar que, qualquer dia, aquele poderia ser o seu aspecto, que poderia vir a tornar-se numa das escravas do Assassino do Amor!... Nem que estivesse morta! Ela preferiria escapar do que ter de aturá-lo, todos os dias, com as suas exigências bizarras e aterradoras.
Mal a rapariga desapareceu pela porta, enlevada por algum dos feitiços daquele bruxo malvado, ela engoliu em seco, ao ver que o sorriso cínico do homem esmorecia num olhar frio e prepotente, olhando-a com um ar autoritário e indiferente, com as mãos atrás das costas.
Encolhida em cima da cadeira feita a partir de madeira de oliveira, ela reparou que o homem continuava de pé, com aqueles olhos gélidos.
- Então, Eleonora? – Perguntou num tom sarcástico. – Não gostas dos presentes que te ofereci de livre generosidade?
Ela limitou-se a virar-lhe costas, tentando não enfrentar os olhos esmeralda e de lobo, consumidores de mil fogos, a olhá-la, como se a quisesse devorar com o olhar.
- É uma pena. – Suspirou num tom desagradável. – Mas eu gosto da tua teimosia, gosto muito dela.
A seguir, sentando-se confortavelmente ao lado dela, retirando quase de maneira inocente, dos bolsos um frasco do qual saiu um pozinho vermelho, ele misturou-o de maneira desleixada, com a boquilha e o tabaco, na água.
Minutos depois, saía uma fumaça inacreditável do líquido vermelho, dissolvido na água potável do jarro, uma espécie de fumo roxo, que tomava as formas duma serpente. O Tigre da Escuridão tentou, curioso, cheirar aquela estranha bebida, mas, logo que pôs o focinho grande dentro do jarro de barro, espirrou com um barulho incrível.

Sábado, 6 de Junho de 2009

Deuses para todos os Gostos!!! (ésclarecimento de dúvidas)


Para melhor compreender os deuses aztecas, quis fazer um post - para verem que eu não sou assim tão parva a ponto de não vos explicar porque é que esta personagem está aqui na minha história da jessica.



Sei que é um bocado chato, mas vou qotar de uns livros que tenho cá em casa... sou uma afixionada por civilizações antigas, e, por outro lado, se não vos explicasse esta coisa de mitologia, depois não compreenderiam de todo o que certas personagens - nomeadamente, os Deuses - fazem no universo do arquipélago da Bellanária. E, afinal, não será o culto à morte e a arte que nos tornaram humanos?...


Portanto, cá vamos nós:




Há muito tempo vários povos habitavam a América Central. Os Astecas e os Maias, em particular, formaram aí brilhantes civilizações. A sua escrita, o seu calendário e o seu conhecimento estavam intimamente ligados à sua religião politeísta (que tem várias divindades). Estes dois povos, muito parecidos, partilhavam algumas crenças.


Deuses Exigentes:


Os Astecas, como os Maias, acreditavam que os deuses tinham criado e destruído o mundo várias vezes. Tinham por isso, uma grande preocupação: fazer tudo para os persuadir a não destruir o local onde viviam. Apenas uma coisa, segundo eles, podia apaziguar os deuses: a oferta de sangue humano. Era por isso que os Maias e os Astecas sacrificavam vários homens, mulheres e crianças ao longo das suas cerimónias religiosas.



Relação com a história:


Desde a primeira vez que tive a ideia de escrever uma história (foi para aí há mais de cinco anos) que me tinha inspirado nos deuses astecas para representar os "professores" e "membros do honrado Palácio das Reuniões". Para criar certos deuses, mais pacificos e benevolentes para os heróis das minhas histórias, inspirei-me igualmente nos deuses da mitologia hindu, mas isso fica para outro post. Agora quero falar-vos dos deuses que mais contactam com os personagens da história de Jessica:

Primeiro, Quetzalcoatl (a Serpente Emplumada) - ou, na minha história, mudei o nome para Jetwas, que é caracterizado na Bellanária como "O Pai de todos os Dragões" e um deus benéfico, pensando na sua ligação com o deus Ehecatl , deus do vento e do sopro vital.


A seguir, vem Tezcatlipoca - o seu terrível irmão, cujo nome significa «espelho fumegante», porque o seu espelho lhe permite ver e conhecer tudo.


Tlaloc, deus da chuva (na história bellante, adoptei o nome para Plasna, vindo da palavra latina, "Plasma", liquido claro onde se encontram os glóbulos do sangue - irónico como consegui transformar um deus mesoamericano com um nome que tem a ver com o sangue humano!)


E Chalchiuhtlicue, a sua mulher, deusa dos rios e dos pântanos - numa das histórias contadas pelo Assassino do Amor, ela aparece como Arundahti, segundo a minha descrição e imaginação "um protótipo" da típica mulher bellante, rica e excêntrica.



E que panteão não seria este sem Shiva e Parvati - o casal criador do Yoga na ìndia, Shiva é o destruidor, Parvati é, muitas vezes considerada no hinduísmo como a representação da força feminina criativa - ou melhor, Tsesustan e Swertyhina?


Se precisarem de mais dúvidas, é só dizer. É claro que há mais deuses instalados nos Assentos Dourados do Parlamento de Classes do Palácio das Reuniões, mas é que acabei de dizer o que mais estão referidos nas minhas histórias... Por agora! E por favor, não me critiquem se mudei o nome dos deuses. Algumas pessoas são tão incultas que podem, se calhar, não saber como se pronunciam os nomes. LoL Just Kidding!

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

"Um mundo tanto de escuridão como de luz"...


A Bellanária, ou melhor, o antigo “Império Bellante”, é composto por várias ilhas espalhadas no oceano atlântico, apenas ocultas ao olhar de quem não acredita, cada uma com o seu próprio clima, vegetação e fauna. E tal como cada ilha tem a sua identidade e étnica e dialecto próprios, cada classe que lá habita vive a sua vida de acordo com os princípios estabelecidos pelo Palácio das Reuniões, o órgão legislativo e representativo supremo de todas as ilhas. Isto significa que nem o Rei dos Bruxos, nem a Serpente de Fogo, supostamente, podem contestar as leis que lá se redigem. Tal como disse anteriormente, todas as classes – com excepção dos demónios e dos miseráveis, os humanos mais “miseráveis” segundo o código constitucional da lei escrita pelos deuses, é uma coisa muito complicada – podem eleger ou fazer representar pelos seus membros mais capazes. As criaturas místicas, as Fadas, os seres Humanos, os Feiticeiros Brancos, os Nobres e os Bruxos têm os seus próprios representantes, e a palavra deles costuma ser a própria lei na terra deles. Acontece que agora, a Grande Ilha está dividida em vários sectores regionais: o Vale da Morte e Cyborg Town estão representados, na maioria, por bruxos e demónios, o que de facto não devia acontecer. Outra coisa muito importante a referir é que nem sempre os Deuses são assim tão divinos. É verdade que já houveram deuses – e estão muitas vezes referidos em outras “mitologias do mundo dos mortais” – que foram conhecidos pela sua bondade e justiça.
Mas depois há o “Fanatismo Pan-bellantismo”, a designação técnica para um sentimento muito mesquinho e conservador que cresceu do senso de superioridade iniciado na Era de Melnjar. Esta coisa é muito complicada, pois implica uma série de teorias, como a descriminação por classes, a “Frieza Justa” (ou A do típico bruxo Tienense (uma filosofia muito semelhante àquela do “Caminho do Guerreiro” japonês e do “Übermensch” de Friedrich Nietzsche, que defende que o ser humano deve se superar para bem da Humanidade), que tende a ser mais sádico e vaidoso que devia ser, e também da antiga tradição do sacrifício humano perante os Deuses. Todas estas teorias têm os seus quês e os seus porquês, mas a verdade é que, por mais que tentemos, para sermos humanos, temos de nos tornar humanos, e não é com mais mortes que o vamos conseguir.
Uma coisa que tem acontecido de bom na Bellanária actual, e o que tenho notado, é que, durante os momentos de crise, o típico homem bellante, o corajoso, sedutor, elegante e frio e brilhante feiticeiro apela sempre à calma diplomática e graciosa da “Princesa Bellante”, aquela Senhora Qahlhaya divina, de cabelos louros e tez branca, da etnia das ilhas do sul, que, segundo os racistas mais racistas da nossa ilha, conseguiu salvar o império inteiro apenas com a sua inteligência e a beleza da “mulher ideal bellante”! É claro que não somos nenhuns super-homens nem nenhumas super-mulheres; já passámos por duas Guerras Mundiais…A questão são: será que o homem e a mulher bellante terão aprendido que não são brancos, mas sim negros? Negros, porque, às vezes, conseguimos ser muito cegos. O Senhor Tezcatlipoca disse, com as suas próprias palavras: ‘…devemos aprender com os erros do passado…eu perdoei as acções dos Aliados e da força do Eixos que viviam nas ilhas bellantes durante os tempos da Ocupação, e talvez seja melhor deixarmos as nossas mulheres um pouco mais de liberdade…’
Não é uma questão de sabermos se as nossas ilhas são multiculturais ou multinacionais, ou quanto mais multiraciais, a questão é se conseguimos lidar com a situação sem andarmos sempre “às turras” e conseguimos perceber se conseguimos retirar algo bom sobre essa condição de mundo tanto de escuridão como de luz!



Crónica escrita por Frau “Maggy” Lessinger no News Zone, em 1979, na ocasião de celebração da comunidade portuguesa do 25 de Abril. O pseudónimo Frau Margareth Lessinger era a única maneira que a minha mãe Katharina tinha para expressar os seus sentimentos e opiniões sobre a sua experiência como “criminosa de guerra nazi”, que era o termo mais educado que ela tinha recebido enquanto passeava pelas ruas da grande cidade de Cyborg Town. No entanto, a minha mãe foi alvo de duras criticas quando se descobriu que uma criminosa de guerra estava a escrever para um jornal liberal. A minha mãe sofreu muito nessa altura, mas lá conseguiu ultrapassar a “maldição” que nomes como Heinrich Himmler, Joseph Goebbels e Adolf Hitler lhe davam pesadelos, não só de noite, como em plena luz do dia. Porque é que a antiga “Fräulein Katharina” se identificaria com a Senhora Baronesa Qahlhaya, uma antiga heroína nacional dos tempos do Assassino do Amor…?

Sábado, 2 de Maio de 2009

Alea jacta est - que os jogos começem (Parte II)


A porta abriu-se, e, em vez do Assassino do Amor, encontrou uma rapariga, nova, de para aí doze anos, muito bonita, com uma túnica azul pobre e rota a cobrir todo o corpo, de cara limpa, e com cicatrizes de espadas e de chicote no pescoço, cujos cabelos encaracolados escondiam umas tristes jóias de âmbar, e, debaixo da cabeleira, haviam uns lábios secos. A cabeça, leve que nem uma pena, conformada, era triangular, e as suas mãos bege, cicatrizadas, velhas, enrugadas, poeirentas, faziam pena só de a ver.
Não cheirava a nada, e, provavelmente, seria muda, apenas o olhar servia para descrever a pobre alminha, e, aí, ela entendeu. Aquela jovem menina era uma escrava, uma criada do castelo, e, pelos vistos, era uma das mais novas.
Sobre as vestes feias e roxas, haviam insectos a comer alguns tecidos rotos, que depois o repunham, e, com várias fendas e ninhos e redemoinhos na sua roupa, a pequena menina de um metro e trinta e cinco trazia um frasco, vermelho, com a forma dum pequeno esquilo, cuidadosamente trabalhado a vidro, de oito centímetros de altura, oferecendo uma noz.
Foi aí que ela tocou na mão da rapariga, e reparou no sorriso melancólico que esta lhe lançava.
Aqueles olhos hipnóticos pareciam queimar-lhe o coração de piedade, e, sentiu as feridas profundas, os cortes ásperos que tinham sido desferidos na pele da fadinha, e, …Aquilo seria uma sílfide!... Tinham lhe arrancado as asas e todo o poder. Céus…! Aquilo era o horror dos horrores. Larvas devoravam, aos poucos, a carne de hidrogénio, água e sulfato de carbono dos quais era constituída apenas a pele da menina.
Com as cascas de enxofre a saírem, plenas, da menina, ela, falou, por fim, numa voz, fraca, rouca, e quase num fio de vida, como se estivesse a morrer ali mesmo, uma vozinha desgraçada, que já não tem nada que é seu:
- Princesa Eleonora. – Chiou a arruinada criatura. – Isto é para vós, um presente do meu amo e senhor…
Deu-lhe o frasco com uma relativa dificuldade, e, de seguida, desmaiou, com o corpo débil caído sobre o chão!
Eleonora, muito espantada e impressionada com aquela personagem, tentou ajudar a rapariguinha a levantar-se, dando um pouco do copo de água que tinha pousado na mesa, e, de em seguida, generosamente, fê-la sentar-se num banco. Não poderia, de maneira nenhuma, deixar que a pobrezinha perdesse o seu espírito, ali mesmo.
Era tão esquelética e frouxa, como se não comesse há meses uma única semente ou fruta vinda da floresta, que a princesa decidiu compartilhar as suas riquezas com ela, dando-lhe de beber à boca, chegando-lhe o jarro aos lábios.
Aliviada, com um sorriso gentil, ela olhou para a escrava, ainda com os olhos preocupados, segurando-lhe no braço magríssimo.
- Pronto, estás melhor?... – Disse ela, provando, mais uma vez, a sua nobreza de carácter.
A sílfide, abriu lentamente os olhos, piscando-os de vez em quando, de momento para momento.
A princesa ficou com receio que este fosse o fim para a coitadinha, e, então, esperou mais uns minutos. Só esperava que ela não morresse…
Então, a pobre menina lá abriu a boca mais uma vez, e foi então que Eleonora pousou delicadamente o jarro de barro cheio de água.
- Não precisáveis de fazer isso, Vossa Alteza. – Gemeu a sílfide dificilmente, com lágrimas nos olhos.
- Ora, não precisas de agradecer, querida. – Eleonora sorriu, contente por ter ganhada uma nova confidente. – Só fiz o que qualquer outra pessoa ou criatura mágica faria.
- Não é verdade. – Lamentou-se a outra, com os cabelos encaracolados castanhos a esconder a cara. – Os Bruxos são horríveis e tão maus, …
Batem-me, gritam comigo, ameaçam-me!... Dirlent, o duende e assistente de laboratório de Sua Senhoria, é o pior de todos! Puxa-me os cabelos, lança-me centopeias para o meio da cara!
Com as lágrimas de água potável a escorrerem-lhe pela cara branca de nuvens, ela pôs as suas mãos nela, chorando irremediavelmente.
- E…A coisa mais terrível de todas é que…Nós, Fadas, não podemos fazer nada contra isso! – Exclamou, cheia de dó de si. – Oh, por favor, ide embora antes que seja tarde demais!
- Não me vou embora deste castelo enquanto não me certificar que todas as Fadas e criaturas daqui estão a ser tratadas como deve ser. – Respondeu a rapariga, renitente com toda aquela injustiça. – Então não te preocupes, porque falarei de imediato com o teu senhor e, em breve, tudo mudará. Tem esperança, e põe um sorriso, ficas mais bonita assim.
A jovem sílfide tentou forçar um sorriso, enquanto se recostava no assento, mais alijada de todo o trabalho que tinha no castelo. Ela pôs, timidamente, um braço nos ombros da jovem princesa, e deixou-se ser consolada por ela, abraçando-se infantilmente ao seu corpo.
- Oh, sois tão generosa para com o vosso povo, Princesa. – Soluçou ela, acalmada pelo calor fraternal de Eleonora.
- Também não vale a pena chorar por leite derramado. – Animou a rapariga mais velha, dando palmadinhas nas costas dela. De repente, afastou-se e soltou uma risada despreocupada – Desculpa, sou tão distraída que quase me esqueci de te perguntar o nome.
- Ariana, só Ariana. – Inquiriu ela, de mãos cruzadas sobre o colo, encolhendo os ombros.
- Tens um nome muito bonito, Ariana. – Riu-se a princesa divertida. – Não és de cá, pois não? O meu nome é Eleonora, portanto, gosto mais de que me tratem assim, está bem?
Ariana suspirou, quase sem fala, mas, logo recuperou do terrível choque, sentada diante da rapariga.
Ela era verdadeiramente, uma caixa de surpresas, e, depois da princesa contar como é que tinha entrado naquela “casa assombrada”, foi a vez da pequena sílfide contar a sua história, aproveitando para desabafar com alguém diferente e novo lá na casa enorme.
Acenando com uma das mãos, ela bebeu do jarro e fez um movimento especial com as mãos.
- A minha mãe era uma demónio, espia e informadora do Senhor do Castelo, enquanto que eu ainda não tinha nascido. Isto passou-se muito antes do desastre. – Explicou ela na sua voz fininha. – Quando ela se apaixonou por um elfo na Floresta de Cristal, ficou grávida. Porém, o meu pai, ele próprio, era um espião, a trabalhar para a Rainha Melnjar, e, depois de eu nascer, nunca mais quis saber de mim. Furioso, o Assassino do Amor matou o meu pai e arrancou-me dos braços da Mamã e matou-a no mesmo dia, despedaçando-lhe o coração com a espada, literalmente, preocupado que ela tivesse denunciado algum segredo importante. Não quero ir em detalhes, porque foi uma coisa horrível de se ver.
- Jetwas seja louvado! – Interrompeu Eleonora. – Que feiticeiro cruel que este tal Assassino do Amor é! E mesmo assim, poupou-te a vida?...
- Na condição de que eu estivesse aos serviços de Sua Excelência, trabalhando para ele como serva, e depois como concubina, quando tivesse a idade apropriada. – Concluiu tristemente Ariana, com uma lágrima nos olhos, assustada, obviamente, com a ideia de ser violada por algum feiticeiro, ela conhecia muito bem a lascívia deles.
- Mas tu mal tens doze anos! – Disse a rapariga, atónita, de mãos estendidas para a amiga. – Impressionante do que aqueles bruxos são capazes, não é?
A outra limitou-se a abanar a cabeça, habituada à forte violência a que estava habituada, e Eleonora compreendeu uma parte muito importante da natureza humana, e de todos os seres mágicos: quando somos submetidos a provas que arriscam a nossa vida, fazemos tudo para sobreviver, mesmo viver como homens sádicos como aqueles feiticeiros.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

"Alea jacta est" - que os jogos comecem (Parte I)

O aroma a rosas perfumadas e a cravos vermelhos inundavam uma suite ampla e bem iluminada, num estilo predominantemente neoclássico, vitoriano, com pétalas de lilases e suaves camélias a encher o quarto dum requintado perfume, a rapariga parecia ter a sensação que estava a andar nas nuvens, descalça. Com um vestido vermelho de seda, sem abas, com uma saia larga cheia de pregas e rendas, e uma cintura rosada a adelgaçar as ancas pequenas, ela caminhava sob o chão de algodão com relativa facilidade, parecendo que voava….tocando nos brincos de ouro branco esféricos a pender de fios de prata, sob as orelhas delicadas, pequeninas e pontiagudas, ela quase que jurava estar num sonho.
Ajeitando com cautela a tiara composta de fio de prata, com duas jóias de ametista e um rubi pequeno no centro da testa, como um terceiro olho, a jovem fada soltou um longo suspiro. Tudo aquilo era lindíssimo, e, quando já passava da meia hora da manhã, ela nem pôde acreditar; Eleonora estava lindíssima, maquilhada, com os lábios pintados de vermelho pudico, que lhe ficava muito bem com as faces de pó-de-arroz e com os olhos castanhos brilhavam sobre o rímel castanho, tímido e discreto.
Tinha de confessar a si própria, estava enfeitiçada pelo charme e luxo inacreditável de Samiel, era, sem dúvida alguma, o homem que ela conhecera com melhor gosto para agradar às mulheres, ele era um génio do mal com um poder especial sobre elas, parecia poder entendê-las tão bem, não conseguia dizer-lhe que não. Porém, ele era frio, severo e implacável contra os seus inimigos, não gostaria nada de o irritar qualquer dia.
Estava um calor impressionante, e a luz das três velas, colocadas apropriadamente sobre a mesa redonda de carvalho castanho, atoalhada por um lençol enorme, rosado, às pintas, não ajudava nada, ela mal podia respirar, ou seria do súbito nervosismo que sentia ao saber que iria estar sozinha com o verdadeiro Assassino do Amor em pessoa. Não gostou nada da ideia de que ela fosse trocada por uma nereida, mas, lá teve que aceitar, com uma tristeza desiludida, observar, por um buraco na parede da câmara por onde os homens do senhor do castelo lhe tinham levado, os beijos atrevidos de Indra, a tocar nos seios de outra mulher, que não era ela. Aquela rapariga, aquela criatura, que os Bruxos tinham apresentado à sociedade de elite bellante, não era mais do que um pequeno chamariz para desviar a atenção da verdadeira vítima da perversidade do bruxo: a verdadeira prisioneira, a Princesa Eleonora, ela mesma, sem um único sitio ou possibilidade de fugir.
Sentada na cadeira, à beira da mesa, ela mal sabia o que é que seria dela, que agora era prisioneira daquele bruxo perigoso e cruel, sem o seu amado para a ajudar…! Que teria feito para aborrecer os Deuses?... Ela apenas pedira um homem diferente do aborrecido, possessivo e atrevido Indra…Seria demais, e, em vez dum príncipe encantado, saíra-lhe na rifa, um dragão malvado.
Enfim, a vida continuava, e, ao ajeitar os seus brincos, reparou num toque, suave e respeitoso, que agora era mais brando que da última vez que lhe tinham pedido para mudar de roupa.
Quem quer que fosse, que se despachasse, pois ela não tinha tempo a perder, quereria ir-se embora mal amanhecesse, mesmo sem aquela produção toda.
Não gostava nada de se sentir como se fosse uma bonequinha de plástico, a qual aquele feiticeiro poderia vestir e decorá-la como ele bem entendesse.
Mesmo que fosse muito educado da parte dele, não iria aceitar aqueles presentes todos de mão beijada. O toque da porta foi mais insistente, e acabou logo por dizer:
- Entre.

Domingo, 8 de Março de 2009

O Tigre da Falsidade


Quando toda a gente tinha acabado, só Rafael, Neptuno, Yermant, Samiel se encontravam naquela sala, todos uns ao lado dos outros, enquanto analisavam a situação.
Os olhos rasgados do feiticeiro oriental estavam completamente pasmados, e, fixando os olhos verdes de Samiel, (este, com uma cigarrilha na ponta da boca, estava mais satisfeito do que nunca), o japonês perguntou, com uma das suas espadas afiadas penduradas à cintura do roupão:
- Mestre Samiel, acreditai naquilo que vos digo; estou realmente estupefacto com tudo isto! – O sotaque honrado japonês notava-se na língua. – A Senhora Melnjar, que sempre fora uma dama respeitada, recatada e digna do seu título, uma governante corrupta?!... Nem pude acreditar nos meus próprios ouvidos mal aqueles homens rudes a agarraram: esperemos que o castigo seja apropriado para a senhora.
- Tenho a certeza que Sua Alteza marcou por fim o seu destino mal entregou as moedas à nereida encarregue de faz tal barbárie terrível à nossa querida Princesa Eleonora! – O Rei das Nereidas, Yermant Damanwo, quase que susteve a respiração mal engoliu em seco, completamente destroçado por tudo aquilo, servindo-se dum copo de Frambinam. Dirigiu-se, com um olhar extremamente preocupado e desonrado, ao rei Neptuno. – Oh, Majestade de toda a Divina e Grande Ilha, perdoai-me se as minhas filhas nereidas lhe causaram um sofrimento indescritível, pois este é um momento de terrível luto e vergonha para mim!
O rei da ilha pôs uma mão amiga e companheira em cima do ombro do outro senhor nobre, esboçando um sorriso meigo e misericordioso, abanando mais uma vez a cabeça.
- Não preciseis de fazer tal cerimónia, meu amigo. – Disse ele, sabiamente, apontando para cima. – Jetwas perdoa tudo e todos, mesmo a sua irmã que pecou, Ele a perdoará, e também abençoará os vossos arrependimentos e os das vossas irmãs, filhas e netas nereidas.
O Rei dos Magos, como era chamado o “Mestre Rafael”, colocou as suas mãos em forma de oração e fez uma vénia em direcção aos céus.
- Que os grandes e poderosos Deuses triunfem com a Justiça e Honra, é só isso que peço. – Pediu num tom de reverência.
De repente, uma voz mais nova falou de repente, uma voz igualmente heróica e premiada de júbilo e alegria.
- E que os Deuses abençoem o nosso casamento com sorte e amor para o resto das nossas vidas! – Indra abraçava a sua querida Eleonora, apertando-a contra o seu peito com a maior das felicidades.
Todos concordaram, soltando gargalhadas bem-dispostas, mas, quando iam festejar com um brinde de Frambinam, um cigarro foi deitado no cinzeiro, soltando um cheiro desagradável e abrupto, queimando de repente os corações esperançosos dos grandes homens. Todos ficaram espantados e assustados.
O rosto de Samiel olhou para os outros cinco homens com frigidez e cepticismo.
- Que bando de idiotas ingénuos! – Comentou o bruxo, acenando com a boquilha presa nos dedos, ainda a fumegar o fumo azul sinistro. – Aquela mulher não vai desistir enquanto não estivermos todos na banca rota e ela no poder, tal e qual como nos tempos em que Sua Majestade andava completamente às cegas, através dos poderes dela. E depois dizem que sou eu o bruxo.
- Agradecíamos imenso que calasses essa boca fedorenta e que, em vez de dizeres disparates, nos oferecesses, um dos teus famosos Frambinam de se tirar o chapéu. – Sugeriu Indra entre dentes, com um dos braços, agarrado ao da sua amada.
- Se quiserdes que nos retiremos da vossa senhoria, será um prazer delicioso, meu caro Mestre Samiel. – O feiticeiro japonês permaneceu calmo, embora tivesse uma grande vontade de desembainhar a espada. – Mas, por favor, dizei-nos duma maneira educada.
Neptuno logo impediu os outros cavalheiros de desembainharem as armas, com o seu tridente omnipotente, oferecido pelo Tsesustan em pessoa, e, ao erguer a sua arma de ouro, os outros homens logo se afastaram, conformados, mas contrariados pela malcriadice do Assassino do Amor. Eles sabiam que nada podiam fazer contra o poder do Rei autêntico da Bellanária, no entanto, sentiam uma enorme vontade de dar uma lição àquele ingrato, mal-agradecido bruxo de terceira categoria, que nem sequer lhes oferecera uma bebida antes de se irem embora.
O homem nem se despediu deles, e, mal os viu pelas costas, dirigiu-se, por fim, até aos seus aposentos, lançando pragas baixinho àqueles hipócritas patetas, guerreiros de terceira classe. Em breve, eles se aperceberiam que tinham sido pagados numa moeda falsa.